Impecável (parte I)

16 03 2009

Na penteadeira, os cremes e perfumes foram organizados por ordem de tamanho, da esquerda para a direita. Não havia nenhum livro na mesa de cabeceira, só um pequeno espelho. Aliás, havia espelhos por todo o quarto. Espelho na caixinha de música, nas portas do armário, na casinha de bonecas… Era o único meio que ela encontrava para inspecionar cada centímetro de seu corpo e se manter impecável.

Desde pequena, nunca teve muito contato com outras pessoas. Por ser filha única, criou um mundo próprio de bonecas, pôneis e castelos encantados. Recusava a presença de outras crianças sujas comedoras de lama. Saía do seu retiro somente na hora das refeições e quando precisava ir ao toilet. Anos depois, exigiria que construíssem um banheiro só para ela quando encontrou um calhamaço de cabelo no ralo do chuveiro – uma tia gorda e solteirona tinha vindo passar o feriado e estava com problemas de queda capilar.

Amparo tinha cabelos castanhos e lisos que desciam até a metade das costas, a pele muito branca e mãos de pianista. Nunca tocou piano ou qualquer outro instrumento. Todo dia, acordava às 6 da manhã, calçava seus chinelinhos de flanela rosa e mergulhava o rosto na água gelada. Limpava os poros com algodão embebido de leite de rosas e escovava os cabelos até ter certeza de que nenhum fio estava fora do lugar. Tudo nela cheirava a limpeza. Tinha pavor a poeira, espinhas e pêlos desarrumados na sobrancelha. Também não gostava do escuro. Tudo em Amparo era claro. Branco, rosa e bege nos dias de tristeza.

Não vou dizer que a garota era burra, só não possuía qualquer capacidade intelectual. Mas era esforçada. Cumpria rigorosamente todas as tarefas acadêmicas e estudava três horas por dia. Português, história, biologia, matemática. Os professores admiravam a sua organização e os seus bons modos. Amparo nunca levantava a voz para ninguém, cobria a boca ao tossir, sentava com a coluna ereta, as pernas cruzadas e falava suspirando.

Quando se formou no colegial, os pais resolveram que era hora que se casasse. A pequena não tinha aptidão para nada além do lar e já estava em tempo de arrumar um marido. Richard, primo de terceiro grau, parecia ser o candidato ideal. Formado em direito, cabelos sempre alinhados, limpo, perfumado e bem vestido.

Amparo não gostou.

Na época, estavam construindo um puxadinho no quintal. Foi Roberto, o pedreiro, que não tinha nem o primeiro grau e vivia sujo de terra que conquistou o coração da menina. Seus pais não entenderam e não aprovaram, mas ela casou assim mesmo. Filha única não gosta de ter suas vontades contrariadas.

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