Impecável (parte II)

16 03 2009

Casou-se. Estava casada e pronto. Não havia solução. Em um barracão é que a sua princesinha não ia morar – bradava o pai – e tratou de arrumar um emprego para o Roberto na firma.

Que é que um pedreiro poderia fazer em uma empresa de eletrodomésticos sofisticados para mulheres-do-lar-com-dinheiro-de-sobra? A mãe sugeriu garoto propaganda. “Ele é até bem apessoado”. Mas o pai – esquecido de que, na verdade, Roberto era pedreiro – gritava que filha dele não casava com um modelinho qualquer.

Vestiu terno no genro, deu sapatos, meias, gravatas, cintos e mala de executivo. Seria Diretor de Estoque. Antes, o cargo era do Afonso mas ele foi rebaixado para assistente do diretor. Continuaria trabalhando como antes, só que com um salário menor e quem assinaria a papelada seria o Roberto.

– Sabe assinar o nome, Beto?

– Sei ler e escrever, doutor.

– Ler não precisa. Só assinar o nome.

As roupas e o emprego novo ainda não haviam tirado a rudeza do marido, para alegria de Amparo. Na noite de núpcias, quando foi carregada até quarto, tinha a impressão de que os braços fortes de Roberto iam partir seus ossos ao meio. Foi atirada na cama com tamanha força e violência que, não fosse o colchão macio, poderia ter fraturado o crânio.

Não se importava com nada daquilo. Pelo contrário, gostava dos trejeitos animalescos do parceiro. Gostava das palavras sujas e rudes que ele urrava sem se preocupar com seus ouvidos frágeis de dama, gostava do gosto salgado na sua boca, de como ele se fartava, depois virava de lado exausto e dormia. Aliás, essa era a parte de que ela gostava mais. De ver o marido adormecido, brilhante de suor, enquanto ela se limpava minuciosamente no banheiro para que não restasse qualquer vestígio de impureza sobre seu corpo.

Tão bom ver o Roberto dormir. Um sono másculo, agitado, o ronco poderoso. Achava bonito ronco em homem. Mulher não deveria roncar nunca. A Tia Maura (aquela gorda com problemas capilares) roncava muito. Era triste de se ver.

No dia seguinte, durante o café da manhã, comentou com o marido:

– Acho bonito ronco de homem. Você ronca forte e alto a noite inteira.

Ele riu da bobagem da mulher:

– Uai! E quem garante que você não ronca?

– Eu? Roncar? Eu ronco?

– Não sei. Eu dormi pesado ontem, não ouvi nada. – riu-se ele – Mas quem garante que você não ronca também? Você é filha única. Dormiu sozinha a vida inteira, não foi?

– Foi, ué.

– Então.

A simples possibilidade do próprio ronco encheu Amparo de pavor. Tinha certeza de que se Roberto a ouvisse roncando, deixaria de gostar dela. A princípio, pensou que sempre esperaria ele dormir para deitar-se. Mas mudou de idéia. E se ele acordasse no meio da noite e ela não? E se ele levantasse primeiro?

Decidiu então que nunca mais iria dormir.

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