O plano

18 03 2009

vassoura

Hoje eu estava correndo andando no meu ritmo habitual, quando topei com uma duplinha de tartarugas. As duas sujeitas andavam sem pressa e não pareciam muito interessadas em me deixar passar. O passeio era delas. Eu já começava a me irritar quando pesquei uma frase no meio da conversa…

A conversa

Com um salário daqueles, como é que ia alimentar três filhos?

A situação

Augusta estava desempregada há três meses. Tinham pegado ela roubando comida da despensa.  Mas também… com um salário daqueles, como é que ia alimentar três filhos? Roubou mesmo! E agora estava ali sem emprego e sem despensa.

O danado era que a patroa conhecia todas as dondocas da cidade e a fama de ladra se espalhou. Não arrumava trabalho nem por reza braba. Ninguém se solidarizava com as crianças famintas. Tudo o que importava era ter uma faxineira sem máculas. As patroas esqueciam que elas não precisariam roubar se ganhassem melhor.  Não roubar é muito fácil quando a gente tem dinheiro. E foi pensando nisso que Augusta teve uma idéia maluca.

No início, era só um pensamento bobo de vingança… Mas com o passar do tempo e do fim das economias, ela resolveu colocar o plano em ação. Fato é que ninguém mais se lembrava do roubo depois que aquela babá espancou o moleque. Por isso, assim que conseguiu uma nova entrevista, decidiu se arriscar.

– Boa tarde, senhora. Sou Augusta. Vim para a vaga de faxineira.

– Oi! Entre! Não repara a bagunça… tô sem tempo pra nada esses dias. Mandei a outra embora porque deixava tudo empoeirado e não arrumei outra pra por no lugar dela.  Você tira o pó direitinho, né? (A mulher andava pela sala procurando alguma coisa e não olhou para Augusta um segundo sequer).

– Tiro sim.  (Mentiu. Achava espanar uma chatice.)

– Que bom. Está contratada então! Quando pode começar?

– Começo hoje mesmo.

– Ótimo! Vou te mostrar onde ficam as coisas. Deixa eu só achar a minha…

– Ainda não. (usou o tom mais autoritário que conhecia)

– Como? (agora ela resolveu prestar atenção)

– Primeiro vamos discutir o meu salário…

A dondoca fez uma enorme cara de bunda para a cara-de-pau da sujeitinha.

– Um salário mínimo e não vou assinar sua carteira. Não lidar com burocracia. Aqui nenhuma durou mais que quatro meses, ouviu? Agora vamos andando que vou te mostrar a área de serviço.

Mas Augusta não arredou o pé.

– Meu preço são 6 salários mínimos.

– O quê!?

– E só trabalho meio expediente.

– Pode ir embora então. Que atrevimento! Ninguém vai te contratar por esse preço.

– Tudo bem. – E virou as costas e foi embora. Tinha certeza de que a mulher não se aguentaria de curiosidade. Contou. Um, dois, três, quatro…

– Augusta! Augusta! Espera aí um segundo. (estava claramente afobada)

– O que foi, senhora?

– Acha que pode vir aqui na minha casa, me fazer perder o meu tempo, cobrar esse absurdo e ir embora sem falar nada?

– É o meu preço.

– Mas é um absurdo.

– Eu sei. Mas eu sou a melhor.

– Como a melhor?

– Tenho certeza que já teve muitos problemas com faxineira, não estou certa?

– Sim.

– Uma era preguiçosa, a outra deixava tudo fora do lugar, algumas te roubaram, outras varriam a sujeira para debaixo do sofá… A história é sempre a mesma. Nenhuma dura mais do que quatro meses na sua casa, não é?

– É…

– Pois eu sou perfeita. Não erro nunca.

– Há! Até parece… E eu aqui ouvindo essa besteira.

Mas Augusta continuou falando. Calmamente. Sem prestar atenção nas reclamações da mulher.

– Pra começar, eu não preciso ser faxineira para ganhar a vida. Meu pai me deixou muito dinheiro. – Augusta respirou fundo, levantou a cabeça e procurou ser o mais convincente possível. – Eu escolhi essa profissão porque EU quis. Sempre tive pavor de sujeira e bagunça. Qualquer tipo de desorganização me incomoda. Mesmo na casa dos outros. Já me disseram que isso é doença, mas eu não me importo. Gosto de limpar. Eu QUERO de limpar.

– Mas se já tem dinheiro, porque cobra tanto?

– Eu já te disse. Eu sou a melhor. Não sou uma empregadinha qualquer de salário mínimo.

– Seis salários mínimos é demais.

– Sim. Você já disse que não se interessa. Agora, se me dá licença, eu tenho mais três entrevistas.

E foi embora. Uma semana depois, o telefone de Augusta não parou de tocar. Até a ex-patroa ligou. Por fim, foi contratada por uma socialite por 8 salários mínimos. Quatro meses depois, largou o trabalho e ganhou uma fortuna com um livro de auto-ajuda que escreveu sobre essa história toda.

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One response

25 03 2009
João

É o poder da argumentação, como diz meu pai…
(Você me disse que só tinha um template no blog, mas ele está enorme! Uhu!)

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