Do outro lado

23 03 2009

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Liana hesitava diante da maçaneta do quarto. Sabia que, do outro lado, ele estava com outra mulher. Sabia que não era esperada àquela hora e que surpreenderia os dois no ato da traição. Tinha certeza de tudo. Mas ainda assim, hesitava. Enquanto não girasse a maçaneta, ainda havia uma última esperança de que ele fosse fiel.

Desde que se casou com Afonso, Liana vivia em verdadeira angústia. Pouco antes da lua-de-mel, encontrou um bilhete com letra de mulher dizendo que o esperaria com saudades. Não quis perguntar de quem era. Não era boa sorte brigar nos primeiros dias. Além do mais, poderia ser da mãe, de uma prima ou de um colega brincalhão que colocou o bilhete na calça dele. Quem era ela para julgá-lo por uma coisinha tão pouca?

Tentou esquecer o bilhete e seguir em frente sem mágoa. Mas sempre que ele chegava tarde do trabalho e ia dormir pesadamente sem dar boa noite, sentia dores no peito e pensava que morreria ali mesmo de desgosto ou de falta de ar (algumas vezes, desejava mesmo morrer).  Até que certo dia, a dor foi tão insuportável que explodiu em um acesso de fúria e jogou o bilhete na cara do marido. Acusou-o de falso, enganador, malvado. Como-foi-fazer-isso-a-um-pobre-coração-como-o-meu? Ela não conseguia entender como ele podia ser tão cruel com alguém que só havia sido carinho, amor e respeito. Que tinha se doado de corpo e alma. Que largou a cidade, os amigos e o emprego para ficar junto dele.

– Vai ficar aí me olhando com cara de trouxa? Confessa de uma vez! Confessa que me traiu!

Mas ele não confessou nada. Devagar, aproximou-se dela, aconchegou a pequena em um abraço demorado e ela se acabou em lágrimas.

– Que bobagem é essa agora? Eu nem vi esse bilhete. Deve ter sido brincadeira dos rapazes do trabalho. Que pensa de mim? Que me casei com você para te enganar?

Liana respirou aliviada. Era verdade. Aquilo tinha sido uma bobagem. Sentiu, de repente, uma enorme culpa por pensar mal do seu Afonsinho e se jogou aos seus pés, implorando perdão. Nunca mais acusou o marido de nada.

Cinco anos haviam passado desde o incidente com o bilhete e lá estava ela diante da maçaneta. Respirou fundo e já pensava em desistir, quando alguém girou a chave pelo lado de dentro. Quis correr, mas a curiosidade falou mais alto. Ficou lá, paralisada diante da porta, enquanto a outra surgia na sua frente.

Por cinco anos, Liana havia imaginado aquele momento. Ficava tentando adivinhar qual seria a sua reação. Pensava que cairia em um choro compulsivo, que morreria ou que tentaria matar os dois. Mas na hora em que a outra abriu a porta, o ressentimento foi tão grande, tão profundo, que ela não sentiu absolutamente nada.

Afonso logo tratou em dar mil desculpas, que tinha sido só aquela vez, que ele era um fraco. A mulher continuava parada sem saber o que dizer. Para desespero dos dois, Liana ainda permaneceu calada por alguns minutos. Depois, simplesmente sorriu. Ao ver o marido com outra pessoa, percebeu que já não sentia nada por ele há muitos anos. Começou a achar graça da cena toda.

Devagar, se aproximou do marido e lhe deu um beijo na testa. Olhou para os dois com doçura e disse que estava tudo bem. Então, deu as costas para o casal e saiu sem rumo para nunca mais voltar. Pela primeira vez em cinco anos, se sentia feliz. Pela primeira vez em cinco anos, estava livre.

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5 responses

25 03 2009
Lucas

Achei aqui seus textos e noveletas. Lendo e me divertindo.
Abraços

25 03 2009
João

Ah, a certeza do desastre as vezes é bem melhor do que a suspeita. Exceto caso seja um acidente de avião, algo assim…

26 03 2009
monique

gostei de forma especial desse texto…

26 03 2009
Elisa

Que bom, Monique! É sempre legal saber que consegui provocar alguma emoção com meu texto. Obrigada. Mesmo!

26 03 2009
Rodrigo

Oi.
Eu te conheço.
Vc namora meu amigo.
Bom tecnicamente vc também é minha amiga já né?
Muito bom o seu texto.
Bjos.

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