A maca da vaca

8 04 2009

vaca

Isso é uma história verídica. Aconteceu comigo em junho de 2006. Eu tinha acabado de perder todo (ou quase todo) cabelo depois uma escova progressiva mal sucedida e andava meio maluca. Minha mãe resolveu que eu precisava me acalmar e marcou horário em uma sessão de Cinesiologia para mim [o médico achou que poderia me ajudar].

– O que é isso mãe? – eu nunca tinha ouvi falar em coisa parecida

– Ah! Vão tocar em pontos do seu corpo para ajudar você a ficar equilibrada. – ela raramente admite que não sabe alguma coisa

Imaginei que fosse algum tipo de acupuntura ou pornografia disfarçada. Pareceu interessante. Mas eu estava redondamente enganada.

Entrei no consultório e logo vi que alguma coisa não estava certa. A doutura era uma perua loira, vestida com uma espécie de poncho roxo e tinha cara de pinscher. Fiquei confusa. Não era para ser algum mestre japonês ou um índio gostosão ou algo assim?

Dr. Pinscher e a leitura de cotovelos

Dr. Pinscher e a leitura de cotovelos

Após o susto, dei uma olhada no resto do aposento. Mesa, computador, diploma, vaca, janela… VACA????!!!

Vaca. Eu juro. A maca do consultório tinha estampa de vaca malhada. Se eu já estava desconcertada com a médica, imaginem depois dessa? Não entendi mais nada. A qualquer momento, a médica começaria a latir pra mim.

– O que te traz aqui? – Ufa! Ela falava!

– Não faço a mínima idéia. – eu não poderia mentir no estado de choque em que me encontrava. Como é que eu ia saber o que me levou a um consultório daqueles?

– Pois bem. Deite-se.

Deitei. Na vaca. Ops. Na maca. Respirei fundo e procurei me concentrar. Afinal, pinschers loiros também merecem respeito. Eu não podia rir. Eu não podia rir. Eu não podia rir.

Quem segura o riso por mais tempo?

Quem segura o riso por mais tempo?

– Dê-me seu braço.

Eu dei e ela colocou uma mão no meu braço e com a outra começou a balançar o meu COTOVELO. Prendi a respiração. Inesperadamente, ela deu um tapinha na minha testa. EXPLODI! – e foi um custo para eu me controlar.

– É normal. – ela falou com a naturalidade de quem está acostumada com risos inconvenientes – Você não consegue controlar esses reflexos.

Eu não tinha sentido reflexo nenhum.

Com o passar do tempo, fui me acostumando com o fato de ela não falar nada e continuar balançando o meu braço. Fiquei contando as janelas do prédio vizinho até que ela rompeu o silêncio:

– Você é bem autocrítica, não é?

– Sou? Não sei.

– É sim. Estou vendo aqui.

(Vendo aonde? No meu cotovelo?)

– Você tem medo do fracasso, não é?

– Sim.

(Eu e o resto do mundo)

– Hum…

Todas as respostas então aqui

Todas as respostas então aqui

Ela continuou balançando o meu cotovelo.

– Agora eu quero que você pense no fato de que você é crítica demais consigo mesma e bata com os dedos indicador e médio da mão direta no dedo mindinho da mão esquerda.

Pare e pense nessa cena: Elisa, deitada numa vaca, batendo com dois dedos de uma mão no dedo mindinho da outra. Conseguiu? Aposto que não. É surreal demais.

De toda forma, continuei batendo até ela me mandar parar.

– Pode parar.

Parei e esperei alguma explicação. Ela não explicou.

Mal acabei de bater e ela já tinha catado o meu cotovelo de novo. Dessa vez, eu me entreti com os cadarços imundos do meu tênis, com um aquário sem peixes perto da janela e com o fato do céu estar azul e a água do mar ser azul e o ar e a água serem incolores… É que o nitrogênio em grande quantidade… FOI SÓ UM EXEMPLO! FICA QUIETA, ELISA!… Desculpa.

– Isso começou quando você tinha sete anos.

– O quê?

– Esse seu problema. De você ser muito autocrítica. Começou quando você tinha sete anos.

– Ah é?

– Sim. Peraí.

O peraí foi pra ela fuxicar mais no meu cotovelo (e, agora, no meu passado).

– Foi um problema com professor. Você se lembra?

– Não.

– Bata no dedo mindinho tentando focalizar essa época.

Que época? Que problema? Ai céus… Mindinho de novo. Cotovelo de novo. E então algo MUITO impressionante:

– Estou vendo que recentemente você teve problemas com relação ao seu físico.

(Jura? Com essa minha escassa cabeleira toda arrebentada e exalando amônia há duas semanas? Será?)

– Bem… Como pode ver, estou estressada porque o meu cabelo caiu.

– Ahn! Eu imaginei… Sabia que isso também já aconteceu comigo quando era mais nova? Pintei meu cabelo de preto, não gostei, fui clarear e ele caiu. Tive que comprar uma peruca!

Imaginei ela de peruca e prendi o riso mais uma vez. Daí eu respirei fundo e resolvi ser legal. Mesmo porque, como eu estava passando por um momento difícil, saber que ela teve um problema parecido me inspirou uma certa simpatia.

– Puts! Que bom que o meu cabelo não caiu todo…

– É. Bata no dedinho pensando no seu físico.

– …

Mas aí a simpatia acabou. E a consulta também.

Segundo ela, eu não tinha grandes problemas e não precisaria voltar lá. Só com aquela sessão, todas as minhas frustrações acabariam e em dois meses eu seria uma pessoa completamente equilibrada.

Alguns meses depois, e eu não senti nenhuma diferença (o estresse desapareceu uns 7 meses quando o cabelo cresceu).

Só teve uma coisa estranha nessa história toda. Fiquei com algumas pulgas atrás da orelha e resolvi conversar com a minha mãe sobre meus problemas de infância. Ela me disse que quando eu tinha sete anos, uma professora me colocou num grupo especial na turma porque eu não parava quieta e não me concentrava nas aulas. Vai saber… Quem sabe a Dr. Pinscher não lia cotovelos afinal?

Anúncios

Ações

Information

14 responses

8 04 2009
lara marx

oh mine!
já adivinahram meus SONHOS, mas não precisaram examinar o cotovelo para isso haha

8 04 2009
bel

Você não teve a curiosidade de voltar ao consultório da Pinscher?

8 04 2009
Elisa França

Eu não! Ela disse que eu não precisava mais voltar, ué!

8 04 2009
Paloma

hahaahah
ri alto aqui!!
adorei seu blog

8 04 2009
Henrique Damiao

AHahahAHAHaHAHAhAHHAAHAH…. esse blog tá entrando nos meus top top.

8 04 2009
Kelen Paiva

HAHAHAHAHA Adorei a técnica dos dedinhos!

8 04 2009
João

Leitura de cotovelos? Leitura de cotovelos?! Ok, realmente é surreal demais pra imaginar…Eu fiquei pensando num cachorro gigante de peruca balançando seu braço e tal…Vou ter pesadelos por uma semana agora…

9 04 2009
franciscampelo

Talvez você fale pelos cotovelos.

9 04 2009
monique

hahahahaha!

eu queria ir na doutora cara de cachorro pra deitar na vaca… hahaha

quanto a ela saber seu passado pelo cotovelo isso é esquisito, mas eu li noutro lugar que ao invés de identificação pela retina, no futuro é o joelho quem vai dizer quem somos!!

duvida?!
aqui ó: http://www.tiagodoria.ig.com.br/2009/04/03/seu-joelho-como-rg/

bizarrices….

9 04 2009
Elisa França

Caramba! Identificar pelo joelho é muito estranho mesmo!

9 04 2009
Victor

Huhaeuiheauiheuiahuiaheaui!
Tem coisas que só acontecem com você, Elisa!

13 04 2009

ahahahah
eu tinha uma professora que queria curar minha alergia a giz com os números do meu nome. Mas pra chegar à maca-vaca, era preciso muito mais exoterismo!
Achei seu blog no blog do joão e tentarei não sair mais daqui

13 04 2009
Elisa França

Ei, Zé! Bacana! Da mesma forma, tentarei manter isso aqui atualizado! hehehe

17 11 2009
izamara morais

haaa gotei muinto Eliza isso so acontese com vc…..

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




%d blogueiros gostam disto: